Você Sabia?  

Dislexia: Diagnóstico e agora ?????
Publicado em: 18/06/2014

 Para responder essa pergunta é importante primeiro uma explicação, mesmo que resumida, de como se processa a leitura e a escrita de palavras.

As principais áreas responsáveis pela linguagem localizam-se no hemisfério esquerdo do nosso cérebro: área de Broca e área de Wernicke. A área de Broca é responsável pela parte motora tanto da fala quanto da escrita. Já a área de Wernicke é responsável pela compreensão, pela decodificação.

 

Para a escrita e a leitura de palavras acontecer existem duas vias: a Via fonológica e a via Lexical. A Via Fonológica é utilizada no início da alfabetização e quando estamos diante de palavras novas.

Conforme vamos nos tornando leitores e escritores mais fluentes utilizamos mais a via Lexical, pois nesta ficam armazenadas palavras que já conhecemos. É como se tivéssemos uma fotografia da palavra e por isso nos tornamos mais eficientes.

Um leitor fluente utiliza as duas vias, a fonológica diante de palavras novas e a lexical diante de palavras conhecidas.

 

Para vivenciar este fato, leia a palavra abaixo.

estearamidopropil

E agora leia esta palavra:

primeiramente

Caso você não trabalhe com produtos químicos, a leitura da primeira palavra foi um pouco mais lenta porque é uma palavra que não está armazenada em seu léxico e precisou recorrer a via fonológica. Já na leitura da segunda palavra foi mais rápida porque ela já está armazenada em seu léxico.

Uma pessoa com dislexia, pode ter dificuldades na via fonológica, na lexical ou nas duas vias.

De acordo com ROTTA et all (2006), a leitura e escrita de um disléxico podem apresentar:

- leitura e escrita, muitas vezes incompreensíveis;

- confusões de letras com diferente orientação espacial (p/q; b/d);

- confusões de letras com sons semelhantes (b/p; d/t; g/c);

- inversões de sílabas ou palavras (par/pra; lata/alta);

- substituições de palavras com estrutura semelhante (contribuiu/ construiu);

- supressão ou adição de letras ou de sílabas (caalo/cavalo);

- repetição de sílabas ou palavras (eu jogo jogo bola);

- fragmentação incorreta (querojo garbola);

- dificuldade para entender o texto lido.

Quem trabalha com alfabetização ou tem um filho no início do processo da alfabetização pode estar pensando agora: mas minhas crianças apresentam tudo isso! E é verdade. No início da alfabetização todos os itens citados podem ocorrer. No entanto, o que se percebe é que a criança com dislexia apresenta dificuldade em superar essa fase normal do período inicial da alfabetização.

Então a criança pode estar com 9, 10 anos e ainda apresentar esses itens.

A avaliação é multidisciplinar e de exclusão. O que isso significa? Para a avaliação é necessário uma equipe de psicopedagogo, fonoaudiólogo, neurologista e psicólogo. Ainda não existem testes específicos para o diagnóstico de dislexia, e o que se faz é excluir outros motivos quem podem estar interferindo na aprendizagem da leitura e escrita.

Também é importante salientar que é preciso a criança ter passado dois anos por um processo rico em alfabetização e não ter obtido sucesso.

Mas o que fazer quando o diagnóstico de dislexia é confirmado?

Precisamos ser realistas e saber que dislexia é algo que não tem cura, propriamente dita. Mas com um trabalho a longo prazo e persistente muitas das dificuldades podem sim ser superadas. Também vale lembrar que ser disléxico não significa que a pessoa está condenada a um futuro incerto. Sabemos que a pessoa com dislexia é inteligente e cria estratégias para lidar com a sua dificuldade. E se receber intervenção adequada pode ser um excelente profissional e lidar com a sua vida de forma autônoma.

Em meus atendimentos utilizo o método multissensorial e também aplicação do PEI (Programa de Enriquecimento Instrumental) que auxilia muito no controle da impulsividade, organização, concentração, percepção de detalhes, memória, noção do tempo, orientação espacial, pensamento lógico…

Quanto antes iniciar o tratamento mais a criança será beneficiada.

Também gosto de reforçar que não atendo o disléxico e sim a pessoa.

Para encerrar, vou dividir com vocês uma história contada por Ronald D. Davis, ocorrida no ano de 1949.

O relógio na parede da sala de aula bate cada vez mais devagar: Tic…tac…tic…tac…

“Por favor depressa! Por favor depressa! Por favor…por favor… por favor depressa!” As palavras, apenas audíveis, são sussurradas pelo menino. Cada músculo em seu corpo está tenso. Seus dedos crispam e tremem. Seus joelhos, fortemente pressionados um contra o outro, chacoalham e batem nas paredes do canto. Ele se balança devagar, para frente e para trás, tomando todo cuidado para não deixar cair o lenço branco sobrado, seu rótulo de demérito, drapeado como uma bandeira no alto de sua cabeça.

“Por favor… por favor!”, ele sussurra de novo. Depois prende fundo a respiração e se encolhe. Mas não adianta, nada adianta. Em poucos minutos começa, primeiro um fiozinho, depois tudo. Em silêncio, ele torce para que não haja tanto que faça uma poça no chão.

Ele se inclina apertando com força o rosto contra o canto. Seus punhos se cruzam em X no colo, na esperança de esconder a mancha molhada. Agora, ele se alegra de não poder sair da escola junto com os outros garotos. Talvez todos tenham ido embora quando ele sair e ninguém vai ver; ninguém irá caçoar dele. Ele já havia tido essa esperança pelo menos umas cem vezes antes, mas quem sabe dessa vez ele não terá que ouvir aquelas palavras horríveis:

“Retardado!”

“Retardado!”

“Olha o retardado.”

“O retardado fez xixi na calça de novo.”

Ele é tomado de sobressalto pelo sino que anuncia o término da aula por hoje. No canto, em meio a algazarra e a gritaria das crianças saindo, o menino fica sentado imóvel, desejando que ninguém olhe a sua direção. Se ele pudesse se tornar invisível, era o que faria. Só quando a sala fica silenciosa ele ousa se mexer, ele ousa fazer um ruído.

À medida que o tumulto da saída vai se desfazendo, o tiquetaque do relógio vai se acelerando. Tic…tac, tic, tac!

Apenas audível, o menino murmura uma coisa que só ele deveria ouvir.

“Que foi que você disse?”, o vozeirão ressoa diretamente atrás dele.

Se ele já não o tivesse feito, ele estaria se molhando todo agora. Ele se espreme no canto, o mais apertado que consegue, e tenta ficar tão pequeno quanto possível.

Uma das mãos que o tinham posto naquele canto o agarra pelo ombro e o força a virar-se. “Que foi que você disse?”, a voz pergunta.

“Eu pedi para Deus não me fazer sentar no canto nunca mais”

(Ronald D. Davis)

Quero e preciso acreditar que nos dias de hoje isso não acontece mais. No entanto, sabemos que para uma pessoa se sentir incapaz não é preciso chamá-la de retardada, muitas vezes basta um olhar.


Fonte: Sonia Moojen

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