Você Sabia?  

Desenvolvimento Cerebral Incial e Desenvolvimento Humano
Publicado em: 13/11/2014

 Desenvolvimento cerebral inicial e desenvolvimento humano
J. Fraser Mustard, PhD The Founders’ Network, Founding Chairman
Council for Early Child Development, Toronto, Canadá
Fevereiro 2010 (Inglês). Tradução: novembro 2010

Os anos iniciais do desenvolvimento humano estabelecem a arquitetura básica e a função do cérebro.

 Esse período inicial de desenvolvimento – da concepção aos 6-8 anos de idade – afeta o estágio seguinte do desenvolvimento, assim como os estágios posteriores. Hoje, por meio da neurobiologia do desenvolvimento, compreendemos melhor como as experiências no início da vida interferem nessas diferentes fases.1 Um desenvolvimento inicial prejudicado afeta a saúde (física e mental), o comportamento e a aprendizagem na vida futura. A arquitetura e a função do cérebro são modeladas pelas experiências de vida que afetam a arquitetura e a função dos circuitos neurobiológicos.

 Os estímulos transmitidos ao cérebro pelos circuitos sensoriais nos períodos pré e pós-natal, e também nos demais estágios da vida, diferenciam a função dos neurônios e dos circuitos neurais.

Os bilhões de neurônios no cérebro de um indivíduo possuem o mesmo código genético (DNA). Os neurônios são diferenciados para suas diversas funções (por exemplo, visão, audição, tato, comportamento, etc.) por meio da epigênese. Epigênese é o processo molecular e celular que governa a função dos genes. Esses processos incluem metilação do DNA, mudanças na estrutura da cromatina, RNA não codificador e edição do RNA. Profissionais que trabalham com epigênese concluíram que a compreensão dos mecanismos que regulam a diferenciação e a função dos genes será um componente crítico da pesquisa neurobiológica no século .

As mudanças epigenéticas na função neural afetam os circuitos neurobiológicos que influenciam a saúde (física e mental), o comportamento e a aprendizagem. Os efeitos da epigênese sobre a função dos genes têm início na concepção, e prosseguem durante o desenvolvimento intrauterino e no desenvolvimento pós-natal.

As experiências que promovem o desenvolvimento do cérebro, por meio dos circuitos sensoriais, incluem o som, o toque, a visão, o cheiro, a alimentação, os pensamentos, as drogas, as contusões, as doenças e outros fatores.

Gêmeos idênticos têm o mesmo DNA em seus neurônios (genótipo), mas não terão as mesmas experiências, o que resulta em diferenças por epigênese na expressão genética (fenótipo). Gêmeos idênticos podem ter diferenças de 20% a 30% no comportamento quando adultos (fenótipo). Essa diferença provavelmente está relacionada a efeitos epigenéticos sobre a função neural no desenvolvimento inicial. Em consequência desses estudos, há um interesse crescente sobre a forma pela qual a epigênese pode ser um fator da esquizofrenia, de distúrbios bipolares e de condições tais como o Transtorno do Déficit de Atenção com Hiperatividade (TDAH), assim como um fator de saúde física na vida adulta.

Estudos constataram uma hipermetilação da região promotora de DNA no hipocampo de suicidas com história de abusos e negligência na primeira infância, que está ausente em suicidas que não foram vítimas de abusos ou negligência.

Estudos com animais demonstraram afecções epigenéticas na função dos genes. O gene agouti normal do comundongo leva a uma pelagem com pigmento castanho e a um tamanho de corpo normal. O gene agouti variante é dominante sobre o gene normal, e resulta em camundongos obesos com pelagem amarela.Verificou-se que, quando fêmeas prenhes portadoras do alelo variante do agouti recebiam alimentação metílica suplementar ao metilato uterino regulador do gene agouti variante, a cria apresentava extensa metilação do gene e tinha pelagem e porte corporal normais. A cor da pelagem e o tamanho desses camundongos recém-nascidos tinham relação com a quantidade de metilação do gene agouti variante.

Em ratos, o comportamento em resposta a situações estressantes tem correlação com o número de receptores de glicocorticóides no hipocampo cerebral.4 Quanto maior o número de receptores de glicocorticóide no hipocampo, maior a capacidade do rato adulto para regular os hormônios glicocorticóides e o estresse. Ratos submetidos a lambidas e cuidados zelosos por suas mães após o nascimento perdem a metilação do gene receptor de glicocorticóide, o que conduz a uma boa formação de receptores no hipocampo. Animais com boa formação de receptores exibem melhor regulação do circuito do estresse e são mais fáceis de manipular, ao passo que animais com capacidade reduzida nos receptores de glicocorticóide estressam-se facilmente. Nesses estudos, os pesquisadores descobriram que a administração de um composto (tricostatina A) removeu o efeito epigenético e normalizou o comportamento de estresse dos ratos.4

Estudos retrospectivos em seres humanos mostraram que o desenvolvimento no período uterino e na infância influencia os riscos de doenças da fase adulta (diabetes tipo II, hipertensão, ataque cardíaco, obesidade, câncer e envelhecimento). Os estudos da Kaiser Permanent, da Califórnia, concluiu que adultos com problemas de saúde mental, vício, obesidade, diabetes tipo II, doenças coronárias e outras condições da vida adulta tinham tido desenvolvimento comprometido na primeira infância.

Se estes e outros problemas relacionados ao desenvolvimento são afetados por efeitos epigenéticos na primeira infância, poderia uma intervenção inicial prevenir ou reverter facilmente o processo?

O trabalho de Grantham-McGregor e colegas demonstrou que, se forem nutridas e estimuladas após o nascimento, crianças nascidas com nanismo podem aproximar-se do desempenho de crianças-controle após 24 meses. Esses estudos são compatíveis com a hipótese de que efeitos epigenéticos iniciados durante o desenvolvimento inicial podem ser prevenidos ou revertidos com boa nutrição e estimulação. Estudos realizados em orfanatos na Romênia mostram que crianças colocadas em lares de classe média na Grã-Bretanha, no Canadá e nos Estados Unidos, tendo permanecido pelo menos oito meses em orfanatos, apresentaram, aos 11 anos de idade, desenvolvimento cerebral anormal (cérebro pequeno), eletroencefalograma (EEG) anormal e baixa atividade metabólica – diferentemente de crianças adotadas em até quatro meses após o nascimento.15 Crianças adotadas tardiamente exibiram, aos 11 anos de idade, comportamentos anormais (TDAH, agressão e quasi-autismo) e desenvolvimento cognitivo insatisfatório (baixo QI). Algumas crianças dos orfanatos foram colocadas aleatoriamente com pais adotivos na Romênia e comparados às crianças mantidas em orfanatos.16 Quando esse estudo foi feito, a maioria das crianças tinha passado pelo menos dois anos em orfanatos. O QI médio das crianças dos orfanatos foi 71; o QI das crianças colocadas em adoção foi 81; e entre as crianças criadas por seus pais biológicos, o QI foi 110.16 Crianças que foram adotadas mais cedo se aproximavam do desenvolvimento humano normal, o que não estava ocorrendo com crianças colocadas em adoção após os 2 anos de idade.

Na Carolina do Norte, no estudo Abecedarian, crianças afro-americanas com 4 meses de idade foram divididas aleatoriamente em dois grupos: um com um programa anual intensivo de pré-escola e outro sem um programa específico. Ao ingressar no sistema escolar, as crianças de cada grupo foram aleatoriamente colocadas em um programa educacional especial de três anos de duração ou no programa escolar padrão. O programa especial de três anos promoveu alguma melhora nas funções de leitura e de operação com números em crianças que não tinham frequentado o programa pré-escolar, mas o efeito foi pequeno e se perdeu gradualmente. Crianças que haviam frequentado a pré-escola e o programa escolar padrão exibiram desempenho escolar muito melhor, mas com alguma queda de desempenho aos 21 anos de idade. Crianças que haviam frequentado o programa pré-escolar e o programa de três anos de duração exibiram os maiores ganhos e os mantiveram.

Sabemos agora que a qualidade do desenvolvimento da criança ao ingressar na escola é preditiva do desempenho nos programas escolares.

Os resultados de estudos sobre neurobiologia do desenvolvimento em animais e em seres humanos fornecem forte evidência que o desenvolvimento neurobiológico inicial tem efeitos sobre a saúde (física e mental), sobre o comportamento e a sobre a aprendizagem nos estágios posteriores da vida. Os países que oferecem programas universais de desenvolvimento inicial de boa qualidade para famílias com crianças pequenas tendem a superar o desempenho de países onde os programas de desenvolvimento inicial são caóticos.1

Em meados da década de 1970, Cuba estabeleceu uma estrutura de policlínica para atendimento pré-natal e pós-natal (nutrição, desenvolvimento saudável e estimulação). O notável progresso no status da saúde dos cubanos em comparação com outros países caribenhos e latino-americanos provavelmente está relacionado à qualidade do programa policlínico de desenvolvimento inicial (de acordo com relato de A. Tinajero, em 2009). É possível que esse programa, que tinha início com a gravidez, seja também uma razão importante que leva os cubanos a suplantar substancialmente os demais países latino-americanos nos estudos da UNESCO sobre habilidades em linguagem, alfabetização e operações com números na terceira e na sexta séries.

Sabemos hoje que, assim como a herança genética, os cuidados no início da vida são importantes para o desenvolvimento humano inicial, e que os cuidados nos primeiros anos têm efeitos importantes sobre a aprendizagem na escola e sobre a saúde física e mental por todo o ciclo da vida.


Fonte: http://www.enciclopedia-crianca.com

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