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Como Cuidar da Criança com Zika Vírus
Publicado em: 21/08/2018

 Como cuidar da criança com a Síndrome Congênita do Zika Vírus: o trabalho do terapeuta ocupacional
Por Ana Leite - 15 de agosto de 20181289 2
Um trabalho que não se faz só, se faz junto e em conjunto. Essa é uma das primeiras coisas que precisa ser destacada quando falamos de reabilitação. E, isso foi vivido de forma mais forte na história da síndrome congênita do zika vírus (SCZV) pelas famílias e profissionais de saúde que juntos buscaram por onde caminhar.

Antes de qualquer “bê-a-bá” sobre intervenção, lembre-se….
Antes de qualquer informação técnica e prática, vale contextualizar a quantidade de manchetes e informações que tomaram conta de todas as mídias sobre a “epidemia do Zika Vírus”. Para os profissionais de reabilitação, não se tratava de pensar como intervir, mas também de como responder a quem vivia a devastação de um diagnóstico sem respostas até aquele momento. “Como acolher sem respostas para dar a essas famílias? Como intervir sem caminhos previamente vividos?“

Entendendo e descrevendo (resumidamente) a intervenção….
Quando os livros e artigos não podem esclarecer e apontar caminhos para a prática, pedimos licença às evidências e ouvimos vivências. E foi assim, que Yani Pacheco (obrigada, viu Yani?) conversou conosco sobre

A intervenção do terapeuta ocupacional com as famílias e crianças
que vivem os desafios da SCZV

O primeiro passo do processo terapêutico, qualquer que seja ele, é a avaliação, ela define o caminho inicial a ser percorrido. Mas no caso das crianças com a SCZV, como avaliar? Não havia protocolo definido. Foi necessário unir os olhares, uma avaliação interdisciplinar descritiva das potencialidades e dificuldades das crianças que apresentavam como principais características clínicas: microcefalia secundária (aprenda mais clicando aqui), desproporção craniofacial, hipertonia/espasticidade, hiperreflexia, convulsões, irritabilidade, artrogryposis, alterações oculares e perda auditiva neurossensorial.

Na avaliação inicial, todos juntos. Depois cada um dentro do seu universo técnico, e assim acontecia a avaliação específica da Terapia Ocupacional. Se você quer baixar o roteiro de avaliação, Yani disponibilizou para nós a avaliação dela e Avaliação Inicial infantil Com o primeiro passo dado, sem avaliações padronizadas, a intervenção tinha início. Os encontros para terapia são até hoje na frequência de 1, 2 ou 3 vezes por semana, a depender da indicação terapêutica e, sobretudo, da possibilidade da família de conseguir ir às sessões.

Contextualizando a experiência….
Yani trabalha em uma ONG, Centro Especializado em Reabilitação Mens Sana, que fica na cidade de Arcoverde, interior do estado de Pernambuco, (salve à Fundação Terra que viabiliza esse espaço!!). Recursos, estrutura física, apoio total aos profissionais, mas mesmo diante de um cenário terapêutico que favorece os atendimentos, as dificuldades sociais, econômicas e culturais são importantes. Por exemplo, conseguir um transporte da prefeitura na frequência semanal que os terapeutas prescrevem, pode ser impossível.

No caso da chegam de várias cidades por encaminhamento de hospitais ao centro de reabilitação Mens S ana. Lá a equipe de reab é formada pelas especialidades de Fisioterapia, Fonoaudiologia, Psicologia e Terapia Ocupacional que trabalham com uma equipe médica de apoio.

E a intervenção do terapeuta ocupacional com as crianças com a SCZV?
A primeira coisa a entender é que estamos falando de uma intervenção que deve contemplar as crianças e as famílias.

As crianças com SCZV chegaram bebês. Então, o raciocínio clínico não poderia deixar de incluir a Intervenção Precoce. No entanto, era necessário mais informação. E, nesse momento, foi decisiva a troca entre profissionais para ajudar a definir “por onde começar e caminhar” no processo de intervenção. Internamente, criou-se o grupo de estudos entre as terapeutas ocupacionais da equipe para compreender as alterações de integração sensorial e possíveis formas de intervenção. Externamente, a conversa pôde contar também com a academia, cabe aqui um “salve aos nossos eternos professores da UFPE!!”.

De uma forma bem prática, a intervenção da T.O contempla:
Organizar a criança com a SCZV por meio de recursos sensoriais. Balanço, malha, bola, brinquedos sensoriais. Recursos que são aliados frente aos desafios da irritabilidade, insegurança gravitacional, a necessidade de normatização de tônus, de ganho de controle motor. Essa organização é necessária e precede o futuro alcance de função.
Posicionar e orientar os pais quanto às posturas durante a execução das atividades de vida diária (AVDs) para evitar malformações e complicações clínicas.
Estimular e orientar a família quanto a forma de brincar. Diante da complexidade dos casos, muitos pais acham que seus filhos não “sabem” ou não têm interesse e prazer em brincar e terminam privando as crianças dessa atividade. Assim, é importante ofertar possibilidades…confeccionar brinquedos, adaptar ambientes…
Esse são alguns dos objetivos com a criança que buscam chegar à função. E, entenda aqui a função como algo que pode ser mais básico do que “levar a comida com talher à boca”. A função pode ser segurar o brinquedo. Lembre-se da idade dessas crianças e também que é um caminho de intervenção que está sendo trilhado.

E a família….
Na intervenção com a família as orientações sobre como brincar com a criança e estimulá-la enquanto estiver em casa: brinquedos, posturas, interações, ambientes, juntam-se com palestras, conversas com informações sobre planejamento familiar e conscientização sobre a síndrome e as perspectivas diante do tratamento.

Essa preocupação quanto à conscientização sobre a síndrome esteve muito presente, em especial, pelas angústias e dúvidas dos pais na época da divulgação constante de informações na mídia. Fica claro aqui que cuidar não se restringe a aplicar técnicas, mas a fornecer informações!

De uma forma geral, vimos que a intervenção com as crianças com a SCZV inclui a família que precisa estar consciente da sua importância em qualquer situação terapêutica de cuidado. Com um profissional de saúde junto do outro; avaliando em conjunto, discutindo e pensando quais caminhos de intervenção podem ser percorridos. Juntos vendo cada um sob sua ótica profissional as potencialidades e desafios clínicos e socioeconômicos das famílias. Diante de uma condição de surgimento repentino, epidemiologicamente importante em números e consequências, a equipe de saúde que atende crianças e famílias que vivem as consequências práticas da Zika aprendem todo dia.


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