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Psicomotricidade - Trabalhando a Atenção
Publicado em: 26/10/2011

 JOGOS CORPORAIS TRABALHANDO A ATENÇÃO EM
PSICOMOTRICIDADE


Luiz Christiano M. Nogueira
(Chris Nogueira)


A PSICOMOTRICIDADE é uma ciência da área da saúde que estuda e trabalha com a tripolaridade do ser humano. Diferente de outras ciências, ela visa o desenvolvimento pleno deste ser, estando atenta aos aspectos cognitivos, afetivos e motores.
Esta ciência fez o caminho inverso em seu desenvolvimento e difusão no Brasil.
Inicialmente, sua atuação estava plenamente ligada à educação e, com o passar dos tempos, ela alcançou sua posição real de atuação: a área da saúde. Hoje, a Psicomotricidade adquiriu seu espaço junto aos profissionais da saúde e às instituições afins, tais como: Hospitais, Clínicas de Reabilitação, Centros de Tratamentos Intensivos etc.
Esse caminho percorrido pela Psicomotricidade, foi o mesmo que percorri até
chegar aqui. Profissional da área da educação corporal sentia a necessidade de um maior aprofundamento e principalmente, de uma visão plena e holística dos aspectos da tripolaridade do indivíduo.
Essa experiência na área educacional possibilitou-me um contato com as atividades e jogos específicos que, inicialmente, conhecia apenas seus objetivos de desenvolvimento motor. No entanto, por meio da especialização psicomotora, passei a encontrar outros objetivos inerentes a estas atividades e jogos.
Existem diversas atividades e técnicas que buscam trabalhar cada um dos três
aspectos do desenvolvimento humano. Dentre as diversas atividades existentes, temos os jogos corporais, tão importantes como às demais, com um destacado papel no desenvolvimento neuropsicomotor da criança.
Nossas experiências são adquiridas, desde o nascimento, através do corpo.
Nossos cinco sentidos favorecem o recebimento de estímulos advindos do meio exterior, para então serem processados e armazenados em nossa memória, havendo, em seguida, uma resposta elaborada e intencional.
Diante dos avanços da sociedade em geral, principalmente os da evolução científica e tecnológica, as crianças estão sendo cada vez mais estimuladas, o que lhes proporciona um desenvolvimento precoce, comparado às crianças do século passado.
Elas estão mais inteligentes e espertas devido à super estimulação que recebem durante os sete primeiros anos de vida, desenvolvendo, cada vez mais cedo, as diferentes áreas cerebrais. No entanto, com esse avanço e crescimento social, as crianças acabam privadas
de adquirir novas experiências corporais, ficando presas aos seus condomínios e casas, recompensadas por jogos eletrônicos. Consequentemente, em função da precocidade do desenvolvimento cognitivo e da escassez de estímulos motores, elas estão expostas a novos medos, ansiedades e inseguranças com os quais os pais, educadores e terapeutas devem se preparar para lidar.
As experiências corporais da infância são imprescindíveis para um bom e pleno desenvolvimento psicomotor. É através do corpo que recebemos todas as informações advindas do meio externo, as quais nos transmitem constantes experiências e aprendizagens. São estas experiências e aprendizagens que nos preparam para receber novos conhecimentos e a enfrentar novos desafios. Entretanto, um indivíduo privado destas explorações terá um corpo inseguro e fragilizado, ficando muitas vezes bloqueado e reprimido.
Como prova disto, temos nos estudos de AJURIAGUERRA, que muito contribuíram para desmistificar uma visão mecanicista do corpo, a afirmação que “é com o corpo que a criança elabora todas as suas experiências vitais e organiza toda sua personalidade”, e que “a evolução dessa criança é sinônimo de conscientização e conhecimento cada vez mais profundo do próprio corpo”.
Com esse olhar, podemos afirmar que os Jogos Infantis além de trabalharem as capacidades físicas, como: velocidade, agilidade, resistência, flexibilidade etc. eles estimulam todas as áreas psicomotoras: tonicidade, equilibração, esquema e imagem corporal, lateralização, orientação espacial e praxias, global e fina, por meio de dados proprioceptivos e das informações recebidas do meio externo. As vivências proporcionadas por estas atividades, fortalecem o ser na busca constante de seus objetivos, na crença em suas capacidades e no conhecimento de seus limites. Tais atividades, a partir de uma visão holística do ser, comprovam a idéia de que os três aspectos do ser humano (cognitivo, afetivo e motor) estão interligados e associados.Nenhuma realização mental ou corporal advém apenas de uma área específica do cérebro sem a interferência ou colaboração de outras áreas ou de outros substratos.
Baseado neste conhecimento, não podemos esquecer que na raiz de toda realização mental organizada, a qual exige certo grau de direcionalidade e seletividade, temos a estrutura da atenção humana. Essa atenção é responsável por extrair os elementos essenciais dos estímulos e respostas de toda ação mental, mantendo em constante vigilância essa ação, de maneira precisa e organizada para que toda realização cognitiva aconteça de maneira produtiva.
Os estudos de LURIA, sobre a atenção, contribuíram bastante para entendermos como o cérebro capta, memoriza e responde aos estímulos, além de nos permitirem conhecer melhor a funcionalidade e organização global dos sistemas funcionais cerebrais.
Sabemos então, por meio de seus estudos, que o estado de alerta e de vigilância é fundamental para desenvolver adequadamente qualquer ação mental. Só em condições mínimas de alerta e vigilância é possível receber e integrar informações intra e extra corporais. As ações intencionais exigem certo nível de tônus cortical, certa excitabilidade, ideais para que a realização mental desencadeie de forma organizada.
A função de alerta é responsável pela integração e pela modulação de estímulos, de maneira a selecionar o relevante do irrelevante, estruturando a ativação dos processos neurológicos de facilitação ou inibição, que são imprescindíveis às atividades ou à mudança das mesmas. Assim como o tônus cortical é indispensável para qualquer realização cognitiva, o tônus postural, inseparável do cortical, é essencial para a preparação de qualquer movimento voluntário.
E é sobre estes aspectos da atenção que os jogos corporais irão atuar, entre outros. Através dos estímulos proporcionados pelos mesmos, os quais exigem ajustamentos corporais e preparações motoras para a realização, é que essas atividades exercitam toda a capacidade atencional do indivíduo. Para conseguir bons resultados na execução dos exercícios, o tônus corporal deve estar adequado, realizando ajustes quando necessário, e o tônus cortical preparado para regular as atividades de percepção e elaboração, criando as estratégias que serão utilizadas.
Os jogos que visam trabalhar, além da atenção corporal, a atenção simbólica específica fortalecem e aprimoram o processo de aquisição atencional. Isso por que o indivíduo terá que fixar sua atenção na execução corporal além de canalizá-la para o objetivo simbólico.
Essas atividades são variações dos jogos corporais, mas com um olhar pedagógico. Nelas, desenvolvemos habilidades psicomotoras ao estimularmos os conhecimentos simbólicos. Um exemplo simples é a execução de chutes ao gol em quadrantes numerados: o indivíduo receberá o comando determinando o quadrante em que deverá chutar e, após as execuções, realizará um cálculo matemático.
Uma vez que a formação reticulada, sistema responsável pelo controle tônico,
está intimamente ligada ao sistema límbico, que exerce a função de regulação emocional e de memorização, fica claro que os aspectos lúdicos, motivacionais e desafiadores dos jogos facilitarão a aquisição e o armazenamento das experiências e das aprendizagens advindas da realização destas atividades. O equilíbrio entre a razão e a emoção é o alicerce da vida. Durante toda a vida, as nossas emoções é que nos movem, nos propulsionam, como se fossem o motor do nosso barco, enquanto a razão aparece como nosso leme, nos direcionando às escolhas e aos caminhos a serem percorridos, através de uma análise dos benefícios e das conseqüências. Os jogos educam esse equilíbrio. As emoções afloradas na forma de prazer, motivação, euforia, excitação propulsionam as pessoas às práticas dos jogos corporais, enquanto a razão canaliza essas emoções para uma boa execução da atividade, analisando os caminhos e as estratégias a serem seguidas antes e durante a sua realização.Podemos dizer que a contribuição dos jogos vai além dos aspectos de desenvolvimento. Fazer com que os jovens participem do planejamento, da elaboração e avaliação das atividades contribui ao amadurecimento do aspecto social. Esta participação fará com que se sintam valorizados ao entrarem em contato com as noções de responsabilidade e democracia, num papel dinâmico, emitindo opiniões, debatendo em grupo, tendo iniciativas etc. Com isso, perceberão seus limites e dos outros sem supervalorizar os resultados, entenderão e aceitarão as regras, o que conseqüentemente, fará com que aprendam a respeitar uns aos outros como grandes cidadãos de uma única pátria existente: o Planeta Terra. Apesar da constante referência durante este trabalho, sobre os benefícios dos jogos corporais ao desenvolvimento, estas atividades são benéficas a qualquer indivíduo de qualquer faixa etária, desde que, se respeitem as limitações de cada fase. Durante o processo da retrogênese, os jogos podem favorecer a reaprendizagem propiciando ao indivíduo um contato mais próximo com seu corpo, que ficou esquecido durante um período de sua vida. Ao entendermos que todos os aspectos de desenvolvimento, assim como todas as funções psicomotoras, estão interligados funcionando de forma holística, compreendemos que cabe ao mediador a responsabilidade de organizar os jogos de maneira coerente, para não fugir ao objetivo almejado. Além de ser responsável em adequar a exigência das atividades propostas às características de desenvolvimento do ser ou do grupo, sem subestimar ou superestimá-los.
MELLO destaca que os jogos infantis, embora desenvolvidos em grupos, respeitam a individualidade da criança. O trabalho físico exigido durante o jogo não ultrapassa o limiar em que as crianças podem desenvolvê-lo com prazer, não as submetendo a grandes sobrecargas. Em suma, os jogos corporais são capazes de contribuir para o desenvolvimento cognitivo e motor, da mesma forma que contribuem para os aspectos de âmbito social e afetivo-emocional. Cabe lembrar, que é responsabilidade do professor atuar como mediador em torno destes aspectos subjetivos, tornando esta prática qualitativamente melhor. Para concluir, se o nosso corpo é a via de ligação e de relação com o meio social, quanto melhor experimentado e preparado ele estiver, melhores serão as relações e as aprendizagens em nossas vidas. Essa formação firme e segura nos torna indivíduos com plena capacidade de adquirir as aprendizagens formais e informais, utilizando todo nosso potencial, ou seja, cidadãos atuantes com plenos poderes de luta social. Finalizando, os jogos corporais infantis, por todas as contribuições destacadas neste estudo, podem e devem ser utilizados nos processos de aprendizagem e de reaprendizagem, pois, eles são vitais para a área educacional e podem ser úteis no trabalho terapêutico.
REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS
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