Você Sabia?  

Entrevistando um disléxico
Publicado em: 13/03/2012

Instituto ABCD Entrevista
Entrevista Rodrigo Baggio

 

Para o empreendedor social Rodrigo Baggio: “Você não deve ver um obstáculo como algo que o paralisa e congela, mas que traz a vontade de se superar”.

Rodrigo Baggio já trabalhou em multinacionais, teve sua própria empresa de software, mas se realizou mesmo quando conseguiu juntar sua paixão pela tecnologia com a vontade de colaborar para a transformação social. Isso foi em 1995, quando ele fundou o Comitê para Democratização da Informática (CDI). O empreendimento social já impactou mais de 1,368 milhão de pessoas diretamente, por meio da implantação de 821escolas informais de informática e cidadania (CDIs Comunidade) em 13 países, e rendeu a seu criador o título de doutor honoris causa em Ciências Humanas pela DePaul University, a maior universidade católica americana.
Nesta entrevista, Baggio, que também é membro do conselho do Instituto ABCD, conta como a dislexia o ensinou, desde menino, a superar os obstáculos da vida e a adaptar-se continuamente e reinventar-se para atingir seus objetivos.


Como você descobriu que tinha dislexia?
RB: Foi no meu processo de alfabetização na escola, quando comecei a ter uma série de dificuldades em aprender a ler e escrever. Meus amigos começaram a brincar comigo, dizendo que eu era “lento”, “burrinho”, e isso gerou um impacto na minha vida, por isso fui indicado para o serviço de orientação psicológica e pedagógica da minha escola. Lá, me indicaram para uma fonoaudióloga e, nesse trabalho, eu e minha família percebemos que eu tinha dislexia e hiperatividade. A partir daí, comecei a aprender a ler através de histórias em quadrinhos, associando imagem aos textos nos balões. Eu me apaixonei pela leitura e, finalmente pude ter um desempenho escolar bem melhor.

O que significou pra você descobrir que não era “lento”, mas tinha uma dificuldade real, que podia ser superada adotando estratégias corretas?
RB: Foi um processo de superação importante porque, na escola, os professores ensinavam da forma que eles sempre ensinaram, por meio da divisão de sílabas e de processos tradicionais. Como eu não me adaptei a esse processo, tive que descobrir outra forma de aprender a ler. E foi por meio das histórias em quadrinhos. Como eu também era hiperativo, meu ritmo sempre foi muito rápido. Então, embora eu tivesse dificuldade em ler e escrever, assimilava rápido o conhecimento pela linguagem falada e visual. Também fazia esportes, teatro e sempre fui muito extrovertido. De certa forma, isso complementava outras partes da minha vida.

Você considera que a dislexia trouxe algo de bom pra você?
RB: Acredito que a dislexia me trouxe uma atitude proativa e produtiva em relação a momentos em que me encontro com obstáculos, para buscar formas de superação e de adaptação. Minha atitude diante de um problema nunca foi me deprimir. Foi vê-lo sempre como uma provocação para estimular minha capacidade de reinvenção e resiliência. E isso eu levo para a minha vida profissional de uma forma geral, por isso me tornei um empreendedor social.

No restante de sua trajetória escolar, você teve dificuldades?
RB: A minha trajetória escolar foi, do ponto de vista de notas, regular, porque eu basicamente me lembrava do que retinha em minha memória através da minha observação das aulas. Por outro lado, sempre tive uma participação ativa em atividades que me davam outra experiência de inteligência emocional e de relacionamento com as pessoas em geral. Eu sempre ficava em recuperação, mas era representante de turma ativo, fazia teatro e fui muito cedo para movimentos sociais, trabalhar aos 12 anos como voluntário na favela, com meninos em situação de rua.

Como o computador apareceu na sua vida?
RB: Também aos 12 anos, meu pai me deu um computador pessoal, o TK 82. Foi um aprendizado importante porque eu tinha que programar em Basics, ler os manuais e aprender a me relacionar com esse equipamento como autodidata. Lembro que, na época, o teclado era americano e não tinha acentuação. Então, em algum momento, percebi que a Língua Portuguesa não ia me valorizar na relação com a tecnologia. Eu não precisava me ater a acentos e coisas assim para trabalhar no computador porque a linguagem de programação é uma linguagem mais lógica… Aos 15 anos, já ganhava meu dinheiro com tecnologia.

E por que você optou por Ciências Sociais na hora de fazer o vestibular?
RB: Na época de prestar o vestibular, eu tinha essas duas grandes paixões na minha vida: tecnologia e trabalho social. Como eu já estava fluindo em tecnologia, dava aulas de informática e lançava cursos inovadores no mercado, eu queria ir para a universidade para aprender conhecimentos que aprimorassem a minha prática na área social. Optei por Ciências Sociais porque achava que era um curso que poderia complementar minha visão de mundo. Eu não estudei nada e fui um dos primeiros colocados do curso na Universidade Federal do Rio de Janeiro.

Como foi fazer essa faculdade?
RB: É óbvio que eu não encontrei lá o que buscava e ainda me deparei com minha dificuldade da dislexia e hiperatividade. Fiquei um ano e tranquei a faculdade. Depois, voltei e destranquei. Aí, tentei continuar por mais um ano e não consegui. Tranquei novamente porque eu fui convidado pela Accenture a trabalhar na área de tecnologia. Depois, fui para a IBM, criei minha própria empresa e me transformei em empreendedor. A dislexia e meu espírito empreendedor fizeram com que eu tomasse a decisão de sair da faculdade. Isso impactou minha vida profissional porque eu até podia provar que tinha uma capacidade de realização grande, mas não tinha diploma de curso superior. E foi um peso até eu criar a minha própria empresa e depois o CDI. Depois disso, deixou de ser um problema porque meu desempenho como empreendedor social falava por si só, pessoalmente, eu sempre alimentava um sonho: “será que eu vou ter um diploma algum dia?”. Até que, em 2000, a DePaul University, me deu um título de doutor honoris causa em Ciências Humanas pelo meu trabalho no CDI. Para mim, entre os mais de 60 prêmios internacionais que eu e o CDI recebemos, esse teve um significado pessoal muito especial… Até hoje eu me emociono ao lembrar de me ver em Chicago, ali entre professores doutores, recebendo um título na frente de mais de mil estudantes. Eu passei a ser o primeiro não americano a receber esse título nessa universidade e também a pessoa mais jovem a receber um título em toda a história dessa universidade em Chicago. Eu tinha 30 anos.

Você considera que a tecnologia pode ajudar as pessoas com dislexia?
RB: Sem sombra de dúvida a tecnologia é um acelerador para o disléxico, ao ponto de que, em países como a Inglaterra e o Canadá, quando o jovem é diagnosticado com dislexia, muitas vezes ele recebe um computador. Então, eu acredito que é muito importante estimular a alfabetização digital na pessoa que tem dislexia e o uso da tecnologia como uma ferramenta de desenvolvimento pessoal, de autoestima e desenvolvimento de um espírito empreendedor.

Você teve a sorte de estudar em uma escola que o encaminhou para uma fonoaudióloga rapidamente, o que evitou problemas em seu desenvolvimento. Que recomendações você faria para as escolas?
RB: Acredito que a escola deveria ser o lugar em que as crianças começassem a sonhar, a acreditar nos seus sonhos e buscar transformar esses sonhos em realidade. Um lugar para ativar a responsabilidade que todos nós devemos ter para transformar o mundo. Fazendo isso, você já estimula uma atitude empreendedora e de resolução de problemas, de não ver um obstáculo como algo que te paralisa e congela, mas que traz a vontade de se superar. A dislexia é mais um obstáculo que a gente encontra na vida. E a gente pode se adaptar facilmente a isso, mas a gente precisa ser encorajado. Os professores têm o papel importante de identificar a dislexia em estágios iniciais, e recomendar formas de tratamentos para que os pais possam saber lidar com isso. Também devem estimular a autoestima e a integração dos disléxicos no grupo. Por isso, devem receber orientações claras de como encaminhar o problema.

E para os jovens disléxicos que estão entrando no mercado de trabalho?
RB: Eu recomendaria para o jovem em geral seguir o coração e os sonhos. Qualquer coisa que a gente faz com paixão, com brilho nos olhos, com entusiasmo, faz com que a gente possa se destacar como profissional, seja como funcionário de uma empresa, seja como empreendedor. É muito importante que o disléxico possa fazer cursos de datilografia para tornar mais rápida a interação com o computador. E desenvolver outras habilidades e competências também. Quanto à leitura, eu vejo que é muito importante descobrir temas que nos apaixonem. Para mim, até hoje, escrever é um mega desafio. E a forma que eu me adapto a essa situação é tendo pessoas que me ajudam, que transformam o que eu penso e falo em textos escritos.

Você gostaria de acrescentar algo a esta entrevista?
RB: Queria dizer que tenho um grande entusiasmo de participar do conselho do Instituto ABCD porque acredito firmemente na importância de mobilizar a família dos disléxicos para a criação de associações de apoio à dislexia. Essa é uma causa que precisamos disseminar na sociedade para que a gente possa identificar grupos de voluntários que queiram criar regionalmente associações de disléxicos. É essa organização que vai fomentar a influência em políticas públicas e provocar uma mudança na legislação para apoiar os disléxicos.

 


Fonte: Instituto ABCD - 13/03/12

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