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Crescimento e Desenvolvimento na Adolescência
Publicado em: 27/03/2014

 Crescimento e desenvolvimento na adolescência

 

Maria de Fátima Goulart Coutinho

Comitê de Adolescência, IPPMG/UFRJ.

 

 

A adolescência compreende um complexo processo de maturação que transforma a criança em adulto. A puberdade reúne os fenômenos biológicos da adolescência, possibilitando o completo crescimento somático e a maturação hormonal que asseguram a capacidade de reprodução e de preservação da espécie.

A puberdade tem início e evolução influenciados por fatores genéticos e ambientais1,2,3 caracterizando-se pela ocorrência de:

Adrenarca: resultante do aumento da secreção dos andrógenos suprarrenais (entre 6 e 8 anos de idade óssea) e que parece ser independente da ativação do eixo hipofisário-gônadas.
Ativação ou desinibição de neurônios hipotalâmicos secretores de hormônio liberador de gonadotrofinas (LHRH), com consequente liberação dos hormônios luteinizante (LH) e folículo-estimulante (FSH) pela glândula hipófise.
Gonadarca (aumento dos esteroides sexuais produzidos pelos testículos e ovários)2,3.

EVENTOS PUBERAIS

A altura final, o ritmo como o crescimento se processa, o início e a velocidade com que o desenvolvimento puberal ocorre, a maturação óssea, o desenvolvimento dentário sofrem significante influência de fatores genéticos. As interações com os fatores ambientais se dão de forma distinta, isto é, as condições ambientais que alterem algum aspecto do crescimento não o fazem obrigatoriamente em todos.

A nutrição, incluindo a ingestão de nutrientes específicos, é um dos mais significativos determinantes do crescimento.

Aspectos psicossociais como maus-tratos podem prejudicar o crescimento, a despeito da nutrição adequada e de não haver doença orgânica.

A grande variabilidade quanto ao início, duração e progressão das mudancas puberais tem, como consequência, a questão de a idade biológica nem sempre estar de acordo com a idade cronológica. Assim, é preciso que se leve em conta a fase puberal do desenvolvimento quando se analisa o crescimento de um adolescente2.

 

ESTIRÃO DE CRESCIMENTO:

Durante a adolescência, embora os hormônios desempenhem papéis individuais, a interação entre os hormônios gonadais e adrenais com o hormônio de crescimento torna-se essencial para o estirão de crescimento normal e para a maturação sexual.

O estirão de crescimento, período em que se ganha 20% da estatura final, tem idade de início e velocidade das mudanças variadas entre os indivíduos. Nas meninas, ocorre no início da puberdade e, nos meninos, na fase intermediária.

A avaliação do crescimento é feita por meio de comparação com uma curva de referência: a atualmente recomendada é a da Organização Mundial de Saúde4 (www.soperj.org.br). Acima do escore Z-2, a estatura é considerada adequada para a idade; acima do escore Z -3 e abaixo de Z-2, o diagnóstico é de baixa estatura para a idade; estaturas inferiores ao escore Z-3 são consideradas muito baixas para a idade.

A velocidade de crescimento (aumento estatural no intervalo de um ano) é medida em centímetros por ano e não deve ser aferida através de resultados encontrados em intervalos menores do que seis meses, já que o crescimento sofre influências sazonais.

Até os 4 anos, as meninas têm velocidade de crescimento discretamente mais elevada que os meninos. A partir daí, ambos crescem a uma velocidade de 5 a 6 cm/ano até o início da puberdade, quando a velocidade de crescimento sofre uma aceleração, alcançando valores de 10 a 12 cm/ano no sexo masculino e 8 a 10 cm/ano nas meninas5 . Essa aceleração da velocidade de crescimento é imediatamente precedida por uma pequena redução da mesma.

Para acompanhamento do peso de adolescentes, a Organização Mundial de Saúde recomenda a utilização do gráfico de Índice de Massa Corporal (IMC), ainda se configurando como melhor parâmetro clínico de avaliação nutricional de uma população (www.soperj.org.br)4,5.

O IMC está adequado para a idade (eutrofia) quando seus valores se encontram entre os escores Z -2 e Z +1. A obesidade é caracterizada por valores de IMC acima do escore Z +2, enquanto valores maiores que Z +1 e menores que Z +2 são classsificados como sobrepeso. Valores inferiores ao escore Z -2 são caracterizados como magreza, sendo esta acentuada quando o IMC é inferior ao escore Z -3.

Segundo a Pesquisa de Orçamentos Familiares 2008-2009, o déficit de peso está presente em apenas 3,4% dos adolescentes brasileiros, enquanto o excesso de peso tem uma prevalência de 21,7% (3,7% em 1974-75) entre adolescentes do sexo masculino e de 19,4% no sexo feminino (7,6% em 1974-75)6.

Para avaliação da velocidade de crescrescimento, são utilizados gráficos de Tanner e Whitehouse (anexos 1 e 2)7.

Pelo fato de a estatura sofrer influência de fatores genéticos, o cálculo do alvo genético avalia a herança (estatura dos pais) na determinação da faixa de estatura final. Assim, para calcular o alvo genético, é utilizada a seguinte fórmula5:

 


COMPOSIÇÃO CORPORAL:

Durante a puberdade, os homens adquirem massa magra a uma velocidade maior e por mais tempo do que a mulher. Na mulher, a massa muscular relativa diminui do início ao final da puberdade (80% para 75% do peso corpóreo). Embora haja aumento absoluto da massa muscular, seu percentual sofre queda porque o tecido adiposo aumenta mais rapidamente. No homem, a massa muscular aumenta de 80 a 85% do peso corpóreo para 90% na maturidade. Esse aumento reflete a ação dos andrógenos circulantes8,9.

O ganho de tecido adiposo é mais acentuado no sexo feminino, sendo importante para que os ciclos menstruais se instalem e se mantenham regulares.

 

HORMÔNIOS:

Apesar de hormônios tireoideanos ainda serem necessários para o crescimento normal, os hormônios gonadais desempenham um papel de maior significância.

A puberdade é caracterizada pelo aumento da amplitude dos pulsos de secreção de hormônio luteinizante (LH) e folículo-estimulante (FSH), detectáveis já antes que os sinais externos da puberdade sejam evidentes.

Além do aumento do hormônio de crescimento e dos esteroies sexuais, há aumento na resistência à insulina.

A testosterona estimula a eritropoiese. Por isso, há aumento de células vermelhas no sexo masculino.

 

ÓRGÃOS E TECIDOS:

A maioria dos órgãos duplica de tamanho durante a puberdade. O tecido linfoide sofre uma involução nesse período.

 

MATURAÇÃO SEXUAL:

Clinicamente, é avaliada em cinco estágios, levando-se em conta, desenvolvimento mamário e pelos pubianos no sexo feminino (MP), aspecto dos órgãos genitais e pelos pubianos no masculino7 (GP) (Anexos 3, 4, 5, 6).

A sequência de eventos puberais é ordenada, sendo controlada por fatores neuroendócrinos, responsáveis por seu início e progressão2 (anexos 7 e 8)

O primeiro sinal de puberdade masculina é o aumento do volume testicular (9-14 anos - volume de 4 ml), seguido do aparecimento de pelos pubianos e aumento de pênis5,8.

A semenarca (primeira ejaculação) ocorre com volume testicular em torno de 10 a 12ml, e o sêmen dos dois primeiros anos costuma ter baixa concentração de espermatozoides.

As pilificações axilar e facial coincidem com o estágio III de pelos pubianos, enquanto a mudança no timbre de voz com o estádio V.

A ginecomastia puberal surge em mais de metade dos adolescentes do sexo masculino7,8 e em 90% desaparece em 3 anos10.

A telarca (aparecimento do broto mamário entre 8 e 13 anos) é o primeiro sinal da puberdade feminina, seguido do surgimento de pelos pubianos (pubarca) e axilares, e posteriormente da menarca. A telarca pode ser assimétrica ou unilateral no início do desenvolvimento puberal.

A menarca ocorre dois a cinco anos após a telarca, e os primeiros ciclos menstruais costumam ser irregulares, frequentemente anovulatórios e mais prolongados.

Em relação ao desenvolvimento psicossocial, o anexo 9 apresenta algumas características de cada fase da adolescência, facilitando o enfoque na abordagem dos aspectos de saúde11,12.

O início da adolescência é marcado por diminuição no interesse nas atividades dos pais, grande preocupação com as mudanças pubertárias, intenso relacionamento com amigos do mesmo sexo, aumento da necessidade de privacidade e falta de controle em relação aos impulsos, podendo ser confundido com o isolamento social de alguns distúrbios psiquiátricos de maior incidência nessa fase de vida. Aqui, a linguagem obscena costuma se intensificar, assim como a atividade masturbatória. A fase intermediária é o momento de maior intensidade nos conflitos com os pais, quando a aceitação dos valores do grupo se torna mais importante. A necessidade de experimentações aumenta, as relações com o outro costumam ser fugazes e descompromissadas, engajando-se mais frequentemente em comportamentos de risco, requerendo intensificação das ações de prevenção. Na fase final da adolescência, quando há maior estabilidade emocional, o envolvimento grupal é menos intenso, há maior aceitação dos valores parentais, busca de objeto amoroso único e habilidade de se comprometer e de se impor limites.

 

REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS

1. COUTINHO, M.F.G. Crescimento normal e suas alterações. In: COUTINHO, M.F.G.; BARROS, R.R. Adolescência: Uma abordagem prática. São Paulo: Atheneu, 2001.

2. EISENTEIN, E.; COELHO, K. Crescimento e Desenvolvimento. In: Brasil. Ministerio da Saúde. Saúde do adolescente: competências e habilidades, 2008.

3. GRUMBACH, M.M.; STYNE, D.M. Puberty: ontogeny, neuroendocrinology, phisiology, and disorders. In: WILSON, J.D.; FOSTER, D.W.; WILLIAMS. Textbook of Endocrinology, 9.ed. Philadelphia: W. B. Saunders, 1998. p. 1509-514.

4. Brasil. Ministério da Saúde. Antropometria na Atenção à Saúde do Adolescente, 2009.

5. COUTINHO, M.F.G.; FREITAS, I.C.F. Crescimento e Puberdade. In: Tratado de Pediatria da Sociedade Brasileira de Pediatria. 2.ed. São Paulo. Manole: 2010.

6. Brasil. Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística. Antropometria de Estado Nutricional de Crianças, Adolescentes e Adultos no Brasil. Pesquisa de Orçamento Familiar 2008-2009. Rio de Janeiro, 2010.

7. MARSHALL, W.A.; TANNER, J.M. Variations in the pattern of pubertal changes in girls and boys. Arch Dis Child 1969;44:291-303.

8. SETIAN, N. Puberdade normal. In: SETIAN, N. (ed.). Endocrinologia Pediátrica: Aspectos físicos e metabólicos do RN ao adolescente. 2.ed. São Paulo: Sarvier, 2002. p. 475-86.

9. MONTE, C. Puberdade normal.In: MONTE, O.; LONGUI, C.A.; CALLIARI, L.E.P. Endocrinologia para o pediatra. 2.ed. São Paulo: Atheneu, 1998.

10. RIVERA, N.F.; EISENSTEIN, E.; CARDOSO, C.B.M.A. Relação da ginecomastia puberal com o índice de massa corporal em amostra de adolescentes atendidos em Unidade de Pacientes Externos de Hospital Universitário. Arq Bras Endocrinol Metab. 2009:53(4):435-9.

11. NEINSTEIN, L.S.; JULIANI, M.A.; SHAPIRO, J. Psychosocial Development in Normal Adolescents. In: NEINSTEIN, L.S. Adolescent Health Care: A Practical Guide. 3rd ed. Baltimore, 1996.

12. REATO, L.F.N. Desenvolvimento da Sexualidade na Adolescência. In: FRANÇOSO, L A.; GEJER, D.; REATO, L.F.N. Sexualidade e Saúde Reprodutiva na Adolescência. São Paulo, Atheneu: 2001.

 


Fonte: Maria de Fática Goulart - Revista Brasileira de Pediatria

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